Gira de vozes negras lançam livro de Rosane Borges em São Luís: como se incorpora o tecer de um novo mundo?
Reportagem

Gira de vozes negras lançam livro de Rosane Borges em São Luís: como se incorpora o tecer de um novo mundo?

Obra discute representação, estética e produção intelectual de mulheres negras em roda de conversa no Complexo Trapiche Santo Ângelo.

16 de dezembro de 2025
Abertura do evento reúne música, arte e ancestralidade no lançamento do livro de Rosane Borges
Abertura do evento reúne música, arte e ancestralidade no lançamento do livro de Rosane Borges. Foto: Enos R. Monteiro

O lançamento do livro “Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível”, da jornalista e pesquisadora Rosane Borges, reuniu arte, pensamento crítico e ancestralidade negra na noite da última sexta-feira (12), no Complexo Trapiche Santo Ângelo (Espaço Cultural Humberto de Maracanã), em São Luís. Em formato de roda de conversa, denominada Gira, um conceito de ancestralidade que designa um encontro de partilha e troca entre as participantes, o encontro transformou a apresentação da obra em um espaço coletivo de escuta, partilha e reflexão.

Mediado por Áurea Borges, pedagoga, terapeuta integrativa e integrante do Grupo de Mulheres Negras Mãe Andresa, o evento foi marcado por uma dinâmica circular de falas em que música, artes visuais e reflexão acadêmica se entrelaçaram. A abertura da gira contou com uma performance musical introduzida por Áurea, com participação da intérprete Luciana Pinheiro, que cantou “A Mulher do Fim do Mundo”, de Elza Soares, canção que atravessa simbolicamente a obra como marca de ruptura, reinvenção e resistência.

Além da autora, participaram da conversa Lourdes Siqueira e Silvana Mendes. Doutora em Pedagogia, com pós-doutorado pela University of South Africa e pela University of London, Lourdes Siqueira destacou a trajetória intelectual de Rosane Borges, apresentando-a como “maranhense da gema” e relacionando sua produção a um território histórico e afetivo específico. Em sua fala, Lourdes ressaltou a centralidade das mulheres negras na construção de novos horizontes políticos e culturais, especialmente em um contexto marcado por desigualdades persistentes.

Responsável pela capa do livro, a artista visual e pesquisadora Silvana Mendes compartilhou o processo criativo desenvolvido em diálogo com a autora. Segundo Rosane Borges, trata-se de uma proposta de transformação visual que não apaga a memória da violência, mas a reelabora em novos códigos de beleza e poder.

Ao falar sobre a gênese do livro, Rosane afirmou que a obra nasce do desejo de ultrapassar os limites da escrita estritamente acadêmica e dialogar com um público mais amplo. Os capítulos evocam autores negros e nomes indígenas, reafirmando referências historicamente silenciadas. Para a autora, o livro se constrói como uma crítica ao mundo contemporâneo e às formas como a mulher negra foi representada ao longo da história, propondo um exercício de reconstrução simbólica e política.

Uma crítica ao “nosso mundo miserável”

Imaginários emergentes e mulheres negras é um livro necessário, por toda realidade da mulher negra, uma nova perspectiva de como tecer um novo manto para o mundo. Um manto simbólico que significa fé e força. Áurea Borges menciona que o livro é necessário ser lido por tudo que ele traz, pela sua proposta ousada e inusitada, mas absolutamente factível, da possibilidade de tecer um novo manto onde caibam todas as pessoas.

Para Rosane Borges, o livro é uma tentativa de crítica ao nosso “mundo miserável”, como ela define, em um gesto de enfrentamento e reconstrução da história das mulheres negras. Um dos destaques da obra é o diálogo com o campo das imagens — a capa do livro materializa um gesto simbólico, uma releitura de “Retrato das duas filhas de Otto Marstrand”; a substituição de figuras infantis brancas por onças tensiona os imaginários coloniais, evocando força, ancestralidade e resistência, ao mesmo tempo em que rompe com a iconografia de subalternidade atribuída às mulheres negras. A proposta é “destecer” narrativas construídas, deslocando a mulher negra de lugares historicamente associados à dor para territórios de beleza, invenção e potência.

“Esse livro é de uma consistência muito importante para o momento que estamos vivendo. O mundo só será melhor se nós, gente da nossa natureza, mantivermos a fé, seguindo em marcha permanente no combate ao racismo e às desigualdades”, avalia Lourdes Siqueira.

A metáfora da costura está presente em toda a obra, na proposta de “destecer narrativas” construídas, desfiar os tecidos coloniais que aprisionaram corpos e subjetividades negras, para então recompor outras tramas. Costurar, nesse sentido, não é esconder as marcas do tempo, mas assumir os fios soltos, as emendas visíveis, as bordas — lugares historicamente marginalizados. As vestimentas, floridas, coloridas e culturais presentes no evento também carregam história, identidade e resistência da mulher negra.

Ao refletir sobre comunicação como troca, o livro afirma a negritude a partir das franjas e das bordas do mundo — espaços que produzem sentidos, futuros e novas formas de existir. Mais do que um registro, “Imaginários emergentes e mulheres negras” se apresenta como um gesto importante para o presente e o futuro da negritude brasileira. O livro de Rosane Borges reafirma o vínculo com a ancestralidade e a capacidade feminina de romper padrões e costurar um novo mundo.


Enos Monteiro — Estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Maranhão, onde integra o Laboratório Experimental de Jornalismo – Laborejo. Possui experiência em pesquisas na área de Política e Comunicação, além de atuação em criação audiovisual. Interessa-se pelas intersecções entre jornalismo, cultura e imagem.

Giovanna Souza — Graduanda em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Estagiária de produção na TV UFMA e idealizadora da iniciativa de jornalismo cultural MA’ré, atuando com produção de conteúdo e diagramação. Dedica-se a compreender e produzir narrativas sobre política, esportes, ciência, meio ambiente e direitos humanos.

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