Hierarquias acadêmicas e o lugar ao sol
Opinião

Hierarquias acadêmicas e o lugar ao sol

04 de junho de 2026

Curioso como o argumento para defender aquilo contra o que o contramanifesto Pluralismo Encarnado é justamente o que faz a nossa crítica existir: a hierarquização dos saberes. Não pela competência ou qualidade daquilo que se diz, mas atacando as presenças no debate. Talvez sejamos, sim, jovens. E estejamos mesmo buscando lugar ao sol. Buscando ouvidos para as nossas reivindicações históricas. Buscando espaço para nossa existência e questionando aquilo que sempre disseram sobre nós. Nós somos mulheres, mães, negros e negras, lésbicas, pessoas trans, indígenas, quilombolas, gays, pessoas não-binárias, pobres e tantas outras. Querem-nos em silêncio, mas vamos falar.

Nós entramos no jogo. Aceitamos as regras e construímos nosso percurso do jeitinho que definiram. Tentaram de todas as formas nos silenciar. Mas nós entramos pelas políticas de inclusão. Recebemos bolsas, que sustentaram nossas leituras e fortaleceram nossos argumentos. Resistimos. Nos titularam, passamos em concursos públicos, entramos em programas de pós-graduação e hoje estamos aqui.

Um discurso conservador tenta nos dizer o que é ciência. Como devemos falar, nos posicionar. Que devemos esquecer quem somos, de onde viemos e, principalmente, para onde queremos caminhar. Nós aprendemos a escrever em diálogo com o que Glória Anzaldúa nos recomenda: é sim “para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você”.

Nosso saber não é limpo. Ele vem colorido de nossas vivências. Essas sobre as quais as “reputações estabelecidas” foram construídas. Mas nos mantendo longe, de fora. Nosso conhecimento é “impróprio”, porque ele traz as marcas de todas as exclusões, com as quais precisamos aprender a lidar, pelas quais aprendemos a resistir.

Nosso pluralismo é encarnado de forma literal. Em nossos corpos, marcados por quem escolhemos ser – e sabemos a quem incomoda a nossa presença. Nós falamos alto, nós não aceitamos que falem por nós em nome de afastamento, imparcialidade, neutralidade. Nós queremos o nosso lugar ao sol. E nós já ocupamos esse lugar. E não deixaremos que falem sobre nós de longe. Não deixaremos nos apagarem.

O discurso de defesa da “pluralidade” passou a ser apropriado por setores conservadores interessados em atacar as universidades públicas, acusando-as de terem sido “dominadas pela esquerda e ignora deliberadamente o que estamos vivendo nas universidades. O que surge é um pensamento marcado. Um pensamento encarnado nas experiências concretas das pessoas que historicamente estiveram excluídas desses espaços.

A ideia de que toda fala deve necessariamente ter espaço de circulação pública, independentemente de seus efeitos, é uma distorção da própria democracia, que não se realiza pela ausência de conflito e aceitação pacíficas de ideias dominantes. Mas, em vez disso, pela possibilidade crítica de transformar os próprios discursos que organizam a vida social.

Leia o Manifesto do Pluralismo Encarnado.

Ainda assim, é urgente tirar do papel projetos que atendam às demandas da população hoje. Reconhecer a diversidade não basta — é preciso garantir que essas pessoas tenham o direito de viver com dignidade e segurança.


Gisa Carvalho é Professora do Curso de Jornalismo e do PPGCOM UFMA. Doutora em Comunicação Social pela UFMG, com estágio de doutorado sanduíche em Estudos Literários pela Faculdade de Filologia da Universidade de Vigo – Espanha. Coordenadora do Grupo de Estudos em Tradição e Memória (EsTreMa) e do Laboratório Experimental de Jornalismo (Laborejo). Coordenadora Gênero e Diversidade da UFMA.

Sobre o Laborejo

O Laborejo é um projeto de jornalismo independente que atua no Maranhão, produzindo reportagens aprofundadas sobre temas de interesse público e ampliando a pluralidade de vozes sobre as realidades da sociedade maranhense.