A tecnologia do futuro é humana
Startup maranhense, Nouhau, investe no desenvolvimento de pessoas como caminho de inovação.
06 de junho de 2026Turma de Assessoria de Jornalismo 2026.1
Asua profissão está em risco? Desde que a inteligência artificial generativa começou a se popularizar, esta pergunta se torna cada vez mais urgente para os profissionais. Especialistas apontam que, mais do que provocar demissões imediatas, a IA tem reduzido gradualmente as oportunidades para trabalhadores em início de carreira, principalmente em funções ligadas a tarefas operacionais e repetitivas.
Segundo pesquisa da FGV IBRE (2026), 29,8 milhões, ou 30% da população ocupada (PO) no Brasil, têm exposição à IA generativa, seja como forma de auxílio ao trabalho ou como risco de substituição do trabalhador. Além disso, dados apresentados durante a São Paulo Innovation Week, que ocorreu de 13 a 15 de maio, já indicam uma queda nas contratações para vagas iniciais nos últimos anos, ao mesmo tempo em que empresas passaram a buscar profissionais com maior capacidade analítica, estratégica e criativa.
Com parte das atividades sendo automatizadas e estimativas de milhões de empregos afetados por esta tecnologia, as capacidades profissionais que deverão ser valorizadas daqui para a frente se tornaram tema central de discussões no mercado de trabalho. Neste contexto, destacam-se empreendimentos como a startup maranhense Nouhau, focada em tecnologias de recursos humanos.
Criada em 2019, a Nouhau é uma empresa de educação em real skills — nomenclatura utilizada pelo grupo para se referir a habilidades comportamentais e emocionais. Com foco em transformação de culturas corporativas, o principal objetivo da startup é contribuir para a promoção de espaços de trabalho mais humanos, colaborativos e diversos.
“Nas tomadas de decisão em um ambiente de trabalho, os colaboradores precisam ser prioridade. Foi assim que nasceu o conceito de people first, metodologia criada por nós para focar nas habilidades reais, na educação bidirecional e na experiência individual”, explica a cofundadora e líder executiva da Nouhau, Talyta Ribeiro.
Assim, a mensagem transmitida pelo grupo em seus treinamentos e no trabalho oferecido a empresas é sempre de que o futuro se constrói com pessoas em primeiro lugar.
A história da empresa começa, em 2017, a partir de um evento gratuito organizado por Talyta e pelo cofundador e líder de design da Nouhau, Brenno Cavalcante. O “Te orienta, estudante” tinha a proposta de capacitar jovens e estimular o aprendizado, além de orientar sobre as dúvidas mais comuns que surgem no período pré-vestibular. O sucesso da iniciativa foi tão grande que chegou a reunir mais de 5 mil participantes na sua terceira edição em 2019.
Neste mesmo ano, surgiu o primeiro modelo de trabalho da Nouhau. Talyta e Brenno se deram conta de que o mercado de “soft skills” em São Luís era escasso e decidiram focar no desenvolvimento de pessoas para o ambiente organizacional, reconhecendo a importância da comunicação clara, do respeito entre colaboradores e líderes, bem como de outras habilidades comportamentais e sociais.
Do Maranhão para o Brasil
No primeiro ano da startup, os sócios investiram na validação do produto, em testes de metodologia, construção de autoridade e, ainda, em análises da viabilidade do negócio. Foi assim que, em 2020, foram selecionados para um programa promovido pelo Facebook e pela Artemísia, organização pioneira em Negócios de Impacto Social no Brasil.
A “Aceleradora Estação Hack” visava impulsionar empreendedores que utilizam a tecnologia para resolver problemas sociais e ambientais no país, e proporcionou a Talyta e Brenno a possibilidade de atuar na sede do Facebook, no centro de São Paulo. No auge das expectativas, veio a pandemia da COVID-19 e o projeto precisou ser reformulado, o que trouxe um novo desafio para a Nouhau: como seria possível desenvolver pessoas com uma metodologia inovadora de forma remota?
O produto Imersão Nouhau para Líderes, com mapeamento socioemocional, foi a virada de chave para a expansão da empresa. Com metodologia educacional diferenciada baseada em jogos (gamificação), o treinamento passou a ser reconhecido pelo público como uma ferramenta importante para fortalecer a comunicação interna e o desenvolvimento das equipes nas empresas.
“Enquanto você está jogando, aproveitando, se divertindo e aprendendo, tem uma equipe de psicólogos que acompanha o teu dia e o teu desenvolvimento. A gente brinca dizendo que fazemos o teu retrato, a gente tangibiliza o intangível”, explica Talyta.
O que começou com incertezas, em poucos anos, já ganhava reconhecimento nacional. Em 2022, a Nouhau foi destaque na Forbes Brasil como uma das 21 startups brasileiras consideradas “emerging giants”, empresas em crescimento acelerado e com alto potencial de transformação no mercado, segundo uma das maiores redes globais de prestação de serviços, KPMG.
Com empresas e instituições — como o Governo do Maranhão, a Vale, a Equatorial Energia, o Grupo Mateus, a Suzano e o Porto do Itaqui — consolidadas entre seus clientes, a Nouhau estabeleceu sua presença no mercado de treinamentos corporativos.
Inovação com pessoas
Uma das mais significativas parcerias da Nouhau foi firmada com o Porto do Itaqui, que teve dois projetos reconhecidos dentro e até mesmo fora do Brasil, colocando o Maranhão na rota das boas práticas na gestão de pessoas.
No ano passado, o AAPA Latam 2025, conhecido como o “Oscar dos portos”, premiou o programa do porto maranhense Jovem Tech como um exemplo de iniciativa inédita na transformação de comunidades. Desde 2024, este programa leva qualificação profissional para jovens que querem ingressar na área da Tecnologia da Informação, um mercado em ascensão e com carência de mão de obra.
Mas, para além do conhecimento técnico, os alunos também desenvolveram suas soft skills. Planejamento de carreira, educação emocional e comunicação estiveram na sala de aula com o suporte da Nouhau. E o resultado não poderia ser melhor: de 125 jovens beneficiados pela iniciativa, a taxa de empregabilidade é maior que 70%.
Outro exemplo de sucesso que combinou inovação e formação de profissionais foi o Programa de Residência Portuária, que prepara maranhenses para o mercado portuário ao mesmo tempo que incentiva o desenvolvimento de soluções inovadoras na Empresa Maranhense de Administração Portuária (EMAP). Durante os treinamentos e a atuação no campo, os residentes aprendem a propor soluções para desafios dentro das estruturas dos portos.
A economista Neuzilene Lima Costa, que participou do programa de residência em 2025, conta que, no início, o processo de adaptação foi complicado, mas a metodologia da Nouhau ajudou no desafio. “Achei muito interessante a forma como eles trabalham, chegava a ser prazeroso a gente passar o dia lá. A gente não se sentia entediado, não era aquela coisa chata de palestrinha”, lembra. Além da sensação de bem-estar enquanto participava dos treinamentos, a economista também percebeu benefícios depois do fim da residência. “Realmente aprendi muita coisa e tem feito um diferencial muito grande na minha formação, tanto como economista quanto como profissional no mercado de trabalho”, finaliza.
O Programa de Residência Portuária (antigo Programa Farol) também já foi reconhecido em três oportunidades: duas vezes pela Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH/MA), em 2022 (Gestão de Pessoas – Sustentabilidade) e 2024 (Transformação digital); e uma vez, em 2023, quando ganhou o Prêmio de Valorização de Práticas de Gestão de Pessoas nos Portos durante o 1º Congresso Nacional Integraportos em Santos (SP). Além do troféu, o projeto já formou 32 maranhenses desde o início dos trabalhos, em três turmas.
Um dos impactados pelo programa foi o atual Head de Dados do Porto do Itaqui, Airton Brasil, que fez parte da primeira turma de residentes, em 2022. Antes de ingressar no programa, ele era professor e trabalhava em uma empresa de engenharia em Brasília. Administrar tudo isso fez com que ele tivesse um burnout, então a residência foi uma oportunidade para se reposicionar no mercado de trabalho. “Eu decidi arriscar. Larguei o emprego, parei de dar aula também, e aí fui indo e minha vida começou a melhorar”, relembra. Sempre que pode, Airton indica o programa a outras pessoas. “Quando sai o edital, na mesma hora começo a mandar para todo mundo que eu conheço e que ainda pode concorrer”, afirma.
Diante do aumento da notoriedade e da presença de mercado, a Nouhau expandiu sua atuação para outros estados, como Mato Grosso, Piauí, Tocantins e Mato Grosso do Sul. Por meio de formações presenciais e online, a Nouhau também conseguiu atingir um público cada vez maior em diferentes regiões do país.
Mas, afinal, o que explica o sucesso de um negócio voltado a pessoas? Enquanto a atual discussão está nos impactos de automação provocados pelas inteligências artificiais, apresentando perigo para os empregos atuais e futuros, surge uma nova percepção no mundo dos negócios: habilidades humanas precisam ser valorizadas em meio a um cenário tecnológico em constante evolução. E a história da Nouhau acompanha essa transformação.
Gênero e inovação
Hoje, segundo o Relatório sobre Empreendedorismo Feminino 2023/2024 do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), as mulheres representam um terço dos empreendedores em expansão acelerada. Na prática, porém, a presença feminina no mercado de inovação ainda enfrenta obstáculos relacionados ao gênero.
O maior desafio no ambiente de inovação e startups, segundo a empresária Talyta, está diretamente ligado ao recorte de gênero. “Para eu entrar nas empresas e passar credibilidade, sempre foi desafiador”, afirma. Por ser jovem e mulher, ela relata que frequentemente precisava provar sua competência mais do que os homens ao seu redor e negociar pagamentos melhores.
Ela também destaca que esse cenário acaba alimentando inseguranças internas. “E aí tem a autossabotagem de nós, mulheres, que achamos que nunca somos boas o suficiente”, comenta. Apesar disso, reconhece que, com o tempo e a experiência, encontrou outras formas de lidar com situações para evitar que o seu gênero dificultasse o fechamento de negócios.
Sobre o Laborejo
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