Raízes Vivas – Ensaio Fotográfico do Boi de Ribamar (Sotaque de Matraca)

Ensaio Fotográfico do Boi de Ribamar (Sotaque de Matraca)

Ensaio Fotográfico do Boi de Ribamar - peça 01
I

Destacada em primeiro plano, podemos observar a mão que segura fios de conta contra a vestimenta branca, fortes signos semióticos da integração das relações étnico-raciais no Boi de Ribamar. Nesta imagem, os fios de conta (associados a entidades religiosas afro-brasileiras e afro-indígenas) atuam como signos visuais que comunicam a profunda relação entre a manifestação cultural e as práticas religiosas do Tambor de Mina e da Pajelança. O Boi se torna um quilombo e uma aldeia simbólica, onde a cultura é perpetuada como prova de que sua herança segue viva, contando e fortalecendo sua história. Semiologicamente, esta foto evoca a ancestralidade e a conexão espiritual dos brincantes.

II
Ensaio Fotográfico do Boi de Ribamar - peça 02

A imagem demonstra uma cena da lenda de Pai Francisco e Mãe Catirina, o pilar do Bumba Meu Boi. Quando o Pai Francisco mata o animal para alimentar Catirina, ele comete um ato de insubordinação. Ele coloca a vida, a dignidade e a sobrevivência de sua família acima do direito de propriedade do colonizador. O facão, enquanto signo semiótico, supera sua utilidade prática e assume o papel de um elemento de representação cultural, simbolizando a força e a resistência histórica das populações negras e indígenas que deram origem à brincadeira. O corpo brincante, através de seu gesto dramático, torna-se um ponto de convergência de memórias de superação.

III
Ensaio Fotográfico do Boi de Ribamar - peça 03

O sinalizador de fumaça vermelha erguido no meio da multidão atua como um signo semiótico de convocação e força coletiva, materializando visualmente o calor e a energia do toque das matracas e pandeirões ao redor. A imagem é traduzida como símbolo do poder de união da população, que historicamente encontrou no Bumba Meu Boi um espaço de acolhimento e fortalecimento identitário. Sob a perspectiva sociolinguística e histórica da cultura, essa catarse coletiva representa uma forma viva de resistência contra os processos de exclusão e violência que enfrentaram e enfrentam. O registro imortaliza o momento em que a energia da festa deixa de ser entretenimento e se transforma em um manifesto político visual, provando que a união desses corpos brincantes é o que mantém a memória afro-indígena soberana e em constante recriação.

IV
Ensaio Fotográfico do Boi de Ribamar - peça 04

A imagem destaca o pandeirão, um dos instrumentos fundamentais do sotaque de Matraca, que traz estampada a palavra “POTÊNCIA”, atuando como um signo visual de sua força sonora e simbólica. Instrumentos como este assumem a função de comunicar memória e identidade, também estabelecendo o elo do sincretismo, reverenciando divindades afro-indígenas e do catolicismo popular. A palavra em destaque materializa o poder do toque coletivo que, historicamente, constrói o Bumba Meu Boi.

V
Ensaio Fotográfico do Boi de Ribamar - peça 05

A indumentária destacada na imagem funciona como signo semiótico de ancestralidade afro-indígena. Em diversos sotaques, como no boi de matraca, eles atuam no ritmo e na defesa simbólica da narrativa, representam a resistência da herança cultural ao apagamento histórico e a forte influência dos povos originários na formação do folclore maranhense, comunicando histórias, a força da natureza e a devoção. Os detalhes dos trajes expressam a conexão espiritual e histórica dos brincantes com suas raízes. A imagem foca na indumentária ricamente adornada, caracterizada por tons de roxo, penas e o bordado detalhado de uma borboleta.

VI
Ensaio Fotográfico do Boi de Ribamar - peça 06

Como caboclo de pena, o brincante atua como um guardião encantado da floresta que preserva e protege o boi contra energias negativas. Os movimentos são de criação livre e compõem uma dança vigorosa, caracterizada por passos rentes ao chão e giros que fazem sua indumentária flutuar no ritmo das matracas. Toda essa performance ganha vida por meio do treinamento intensivo e do traje, cuja confecção e manuseio reflete saberes e técnicas ancestrais que são transmitidos entre gerações como um pacto de fé com os encantados da mata e a preservação do patrimônio afro-indígena maranhense.

VII — VIII
Ensaio Fotográfico do Boi de Ribamar - peça 07
O Caboclo de Fita (rajado) executa um bailado vigoroso e de forte marcação rítmica, cujos passos firmes e batidas de pés acompanham o som das matracas e pandeirões. Essa performance resgata a memória dos vaqueiros e trabalhadores rurais das antigas fazendas, também atuando espiritualmente como guerreiros de frente que ajudam a cercar, defender e blindar o boi contra perigos físicos e invisíveis.
Ensaio Fotográfico do Boi de Ribamar - peça 08
O boi bordado figura como um elemento de densidade semântica. É construído como um texto visual onde o bordado, meticulosamente aplicado, eleva o objeto à posição de ícone sagrado. Ao fundir elementos cotidianos e religiosos em sua ornamentação, a peça atua como um discurso tangível sobre a fé e a memória coletiva maranhense. O boi é um artefato de resistência que materializa o saber e o fazer comunitário, consolidando-se como um dos maiores pontos de culminância da identidade e do patrimônio imaterial da nossa cultura.

Créditos: Ana Luiza Brito, Breno Garcia, Eva Ferreira, Karliene Moreira e Liliana Diniz