Pra onde vai a consciência de quem morre? Um relato etnográfico a partir da biodança
Laborejo Pronera

Pra onde vai a consciência de quem morre? Um relato etnográfico a partir da biodança

Por Nicolas Gandhi

Registro do encontro de biodança relatado no texto
Encontro de biodança reuniu 48 pessoas em uma experiência coletiva de silêncio e movimento. Foto: Mariana Castro | Edição: Nicolas Gandhi

Até um dia desses, eu diria que ela paira por todos os lugares, como pássaros sem asas quebradas. Mas após uma imersão na biodança, me arrisco à dizer que ela está, principalmente, no espaço que é criado quando pessoas dispostas a sentir se reúnem. No último sábado, dia 12 de setembro, éramos 48 pessoas reunidas durante três horas compartilhando duas coisas em comum: o silêncio e o movimento. Pessoas essas que todos os dias vivem o mesmo cotidiano íntimo que os dias trazem, mas apesar disso, se conectaram, de verdade, pela primeira vez. Estávamos diante de uma nova possibilidade de encontro: não era preciso explicar nada, produzir nada, responder a ninguém, apenas era preciso estar. No começo, a experiência ainda carregava muitas das marcas sociais que trazemos para qualquer lugar. Pensei, inclusive, em como aquela experiência seria recebida pela minha própria família. Percebi que, entre todos eles, provavelmente sou o primeiro a viver uma experiência como essa e provavelmente, também o único a vivê-la de maneira positiva. Minhas irmãs provavelmente diriam que isso é “coisa de maconheiro”, longe de ser uma acusação, mas como quem pergunta: que viagem é essa que vocês fazem?

Aos poucos, fomos nos soltando, primeiro timidamente, observando o movimento de quem estava ao lado, encontrando algum tipo de segurança no movimento do outro. Estava acontecendo a descoberta de que por trás dos corpos que vemos todos os dias, existem seres que se movimentam como o vento, que carregam desejos, medos, afetos e histórias que não aparecem quando estamos em uma sala de aula. Eu também sou meio travado para a vida. Ela já me paralisou em vários conceitos. Ainda assim, nunca desisti de viver. Vejo que por isso algumas propostas tenham me atravessado tanto. Nos momentos em que era preciso abraçar, não consegui sair abraçando, havia algo em mim que ainda precisava de distância. Mas quando alguém vinha ao meu encontro, eu conseguia receber com carinho aquele abraço. Assim como também consegui observar ao meu redor que aquele momento abriu espaço para muitas mágoas se dissolverem. Somos uma turma que carrega muitos pesos individuais e coletivos. Nesse momento, nos abrimos ao desconhecido, ao ignorado, ao que poderia ter sido lido como inacessível. E brotamos na confluência, que como disse Nêgo Bispo, no livro “A terra dá, a terra quer”:

“Um rio não deixa de ser um rio porque conflui com outro rio, ao contrário, ele passa a ser ele mesmo e outros rios, ele se fortalece. Quando a gente confluencia, a gente não deixa de ser a gente, a gente passa a ser a gente e outra gente – a gente rende.”

Não há dúvidas que confluímos nossas vidas no meio da dança. Éramos muitos. Éramos um só rio. Nós fomos tudo e nada. Eu fui o outro, o outro foi eu. Quem pode impedir a correnteza das águas? Um rio sempre volta. Existe uma diferença entre não conseguir oferecer imediatamente e não querer receber, o corpo às vezes precisa de tempo para entender aquilo que a cabeça já sabe. Havia momentos em que era preciso observar, e isso foi uma das coisas que mais ficaram comigo, que quando paramos para olhar o outro, sempre existe alguma coisa a ser mostrada. Olhar nos olhos de alguém é vê-la nua. Não tenho tanta prática em me despir assim, mas me abro ao desconhecido.

O encontro com quem já se foi

Foi nesse espaço que eu encontrei alguém que não está mais aqui. Em uma virada de ano, recebi a notícia de que meu companheiro de vida, meu parceiro, meu melhor amigo, a pessoa que compartilhava comigo parte dos meus dias, se encantou. Desde então, ele nunca deixou de me acompanhar. No início da biodança, pensei em como ele gostaria de estar ali com a gente, imaginei ele dançando, coisa que nem sabia fazer, ele tinha uma grande dureza no movimento, uma dificuldade com o próprio corpo. Mas nos momentos de silêncio e de conexão, eu o senti tão forte. Difícil saber que o luto não passa e nunca passará. Eu o tenho vivido todos os dias desde a sua partida, tem vezes que de maneira quase imperceptível, outras como se a notícia tivesse acabado de chegar. E na biodança senti como se estivesse ouvindo aquela notícia pela primeira vez. Até tentei segurar o choro, não queria mostrar minha vulnerabilidade mesmo sabendo que aquele era um espaço seguro para chorar. Acredito que naquele momento, a vulnerabilidade deixou de ser apenas minha para que aquele espaço também pudesse ser dele.

Essa partida me atravessa profundamente e continuará atravessando, mas também estou aqui porque um dia ele esteve comigo. Porque, em algum momento, ele me ajudou a acreditar que eu conseguiria atravessar determinadas coisas.

Sua ausência me colocou diante de situações que eu nunca imaginei que conseguiria assumir. A biodança deu uma abertura para perceber que continuar vivo também é uma experiência coletiva, que existem pessoas que conhecemos diariamente e que permanecem desconhecidas até que alguma situação permita que elas se mostrem de outra maneira. Será que é por isso que hoje eu penso diferente sobre para onde vai a consciência de quem morre? Vejo que sim.

Depois que a música terminou, o espaço começou a voltar ao que conhecíamos, mas eu não conseguia olhar para a turma da mesma forma. Estava habituado ao silêncio. É nele que grito minhas maiores angústias. Tínhamos nos movimentado de uma nova forma, sem as amarras diárias que nos prendem, passamos muito tempo acreditando que conhecer alguém é saber sua história, seu nome, o que faz da vida, suas ideias. Mas existe conhecimento na presença. Ali nos unimos e descobrimos juntos essa nova forma de vivenciar tudo o que existe. Fomos fragmentos de um mesmo vidro quebrado. Moléculas de uma mesma água. Não fomos uma constelação, mas uma só estrela. Quando eu olhava para alguém, também estava sendo olhado. Quando eu dançava com alguém, alguém também dançava comigo. Nosso corpo é nossa maior linguagem de comunicação.

Uma nova forma de perguntar

Essa percepção modificou a maneira como compreendo o luto. Durante muito tempo, a ausência pareceu ser a parte mais concreta da morte. Alguém deixa de estar fisicamente presente e tudo ao redor parece confirmar isso, mas existem outras formas de presença que continuam acontecendo. Meu companheiro não estava fisicamente naquela sala, mas sua existência estava atravessando fortemente meu corpo. O que aconteceu naquela sala não ficou restrito àquelas três horas, continuou no meu corpo e na maneira como passei a olhar para as pessoas que dividem comigo o cotidiano. Quando saí dali, não levei uma resposta definitiva sobre a morte, levei uma outra maneira de fazer a pergunta. Antes eu questionava o caminho da consciência por vê-la tão preciosa que não poderia se perder em nada. Mas ao contrário disso, ela faz parte do todo. A morte não levou tudo. Ela deixou uma presença diferente, e foi preciso estar em movimento para perceber isso. Entre 48 pessoas, encontrei partes de histórias que provavelmente eu nunca conheceria e, no meio delas, encontrei novamente alguém que já conhecia profundamente.

Naquele espaço o meu luto tomou forma, e quando volto à pergunta “para onde vai a consciência de quem morre?”, minha resposta já não está em algum lugar distante. A consciência de quem morre continua nos corpos que tocou enquanto ela esteve viva.

Isso basta? Pois eu encontrei um encantado, e ele dançou comigo.


Nicolas Gandhi

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