Veja: uma fábrica de narrativas políticas para ganhar uma eleição
A imprensa ostenta, com frequência, o discurso de que sua missão é fiscalizar os poderosos, colocando-se acima das relações de poder que ela própria ajuda a construir. No entanto, é preciso expor o poder real, muitas vezes dissimulado, que os grandes veículos exercem ao moldar a narrativa dos fatos. Afinal, uma matéria nunca estampa de forma neutra a capa de uma revista. O título chamativo, os adjetivos escolhidos a dedo, as fontes convenientemente ouvidas e as informações colocadas em destaque constroem atalhos mentais no leitor. Não se trata de exigir do jornalismo uma imparcialidade irreal, mas de questionar como as escolhas editoriais orientam o enquadramento e até que ponto a narrativa se sustenta em evidências concretas. É exatamente sob essa ótica que a reportagem da Veja sobre Daniel Vorcaro e o presidente Lula, assinada por Robson Bonin em 9 de outubro de 2026, é um exemplo acabado de construção tendenciosa da narrativa, agravado pelo contexto eleitoral e pela postura arrogante da revista nos dias seguintes.
Publicada cinco dias após o primeiro turno das eleições gerais de 2026, a matéria surgiu em um momento no qual uma denúncia envolvendo o presidente da República e candidato à reeleição poderia repercutir na disputa pelo segundo turno. A manchete “Vorcaro conta que liberou dinheiro para filme sobre Lula por negócios no governo” associa o financiamento de um filme sobre o presidente a supostos negócios com o governo, sugerindo uma relação de favorecimento político. O título, porém, não esclarece se há evidências de que Lula tenha participado da negociação ou se tinha conhecimento dela. O relato atribuído a Vorcaro, por si só, não comprova a alegação nem a responsabilidade do presidente. Embora o contexto eleitoral não prove uma intenção de interferência, é necessário questionar os efeitos de uma manchete que pode levar o leitor a associar Lula a uma irregularidade antes mesmo de conhecer as evidências apresentadas pela reportagem.
A escolha do vocabulário empregada ao longo do texto também influencia essa construção. Termos como “confissão”, “propinas” e “esquema”, quando empregados sem distinguir suspeitas de fatos comprovados, podem induzir o leitor a interpretar a corrupção como algo já demonstrado. Quando a linguagem transmite mais certeza do que as evidências podem sustentar, o jornalismo corre o risco de abandonar a função de informar para assumir o papel de inquisidor.
Outro aspecto importante é a hierarquia das informações. A acusação ganha destaque na manchete, enquanto os questionamentos, as fontes da apuração e o direito de resposta aparecem no meio e no final do texto. Essa distribuição importa porque a informação que abre uma reportagem tende a orientar a leitura das demais.
A construção dessa teia passa pela sequência de pessoas citadas na reportagem. O relato atribuído a Vorcaro menciona Augusto Lima, seu então sócio, como responsável por aproximá-lo de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT. A publicação cita ainda o senador Jaques Wagner como intermediário do primeiro encontro e relaciona a suposta negociação ao Instituto Lula, administrado por Paulo Okamotto. Assim, a revista conecta uma negociação empresarial envolvendo fundos de pensão a um possível financiamento de documentário sobre o presidente, conduzindo o leitor por uma cadeia de relações que termina com Lula no centro da narrativa.
Veja bem, o problema não está em investigar essas conexões, mas na maneira como são articuladas. A proximidade entre pessoas, a intermediação de contatos e a atribuição de possíveis pagamentos são elementos distintos, que exigem comprovações próprias. Reunidos em uma mesma sequência, podem transmitir a impressão de uma ligação direta entre todos os envolvidos, mesmo sem que a responsabilidade de cada um esteja demonstrada.
A fragilidade da apuração também precisa ser observada. A Polícia Federal negou ter recebido o depoimento descrito na reportagem, e a Procuradoria-Geral da República contestou a existência dos documentos mencionados. A defesa de Vorcaro, por sua vez, também questionou a autenticidade do material divulgado. Há, aqui, uma distinção fundamental que aprendemos nos cursos de jornalismo, mas que nem sempre é evidente para o público: uma gravação pode comprovar que determinada declaração foi feita, mas não que seu conteúdo seja verdadeiro. Cabe ao veículo contextualizar as informações, verificar o que foi dito e deixar claro o que está comprovado e o que permanece sob suspeita. Tratar uma gravação como prova de um crime grave pode induzir o público a conclusões precipitadas e comprometer sua compreensão dos fatos.
Dois dias depois, em 11 de outubro, a revista publicou o editorial “A capa Vorcaro-Lula mostra que VEJA tem lado, sim: o da fiscalização dos poderosos”, assinado por Sergio Ruiz Luz. Em vez de se concentrar nas dúvidas sobre a apuração, a direção colocou em primeiro plano a defesa da própria reputação, em um movimento autorreferenciado. A cobrança por rigor técnico passa, assim, a ser apresentada como uma disputa em torno da legitimidade da revista. A alegada independência editorial, contudo, não se comprova pela declaração de qual lado se está, mas pela transparência dos métodos e pela disposição de responder a questionamentos, em vez de tratá-los genericamente como ataques injustos e assumir uma posição de vítima diante das críticas.
Essa discussão ganha outra dimensão diante do histórico da Veja na cobertura de Lula e de figuras associadas a ele. Um estudo acadêmico de Thales Eliopoulos Junior sobre o período que antecedeu o impeachment da então presidenta Dilma Rousseff identificou uma diferença expressiva no tratamento conferido a Lula e ao então juiz Sergio Moro durante a Operação Lava Jato. Das 1.683 menções a Lula analisadas, 79,26% foram classificadas como negativas. Entre as 329 menções a Moro, 73,25% foram consideradas positivas. Na edição de fim de ano de 2015, por exemplo, a revista estampou a imagem do juiz com a frase “Ele salvou o ano!”, reforçando sua representação como figura central no combate à corrupção.
Esses dados ajudam a entender como a repetição de determinadas associações pode transformar a cobertura política em algo próximo de um roteiro de filme da Marvel: de um lado, os vilões, sempre cercados por suspeitas; de outro, os heróis, apresentados como símbolos do combate à corrupção.
Obviamente, o histórico da Veja não anula a importância do papel da revista, mas reforça a necessidade de manter sob escrutínio os próprios veículos que reivindicam essa missão. Em período eleitoral, essa vigilância se torna ainda mais necessária. Afinal, quando as escolhas editoriais conduzem a percepção pública, em vez de oferecer elementos para que o leitor forme seu próprio juízo, o jornalismo deixa de apenas narrar a disputa política e passa a fazer parte dela.
