As revelações da sabatina de Flávio Bolsonaro na TV Globo
“Quem muito aponta o dedo para o próximo costuma esconder muitas falhas em si mesmo.” Esse ditado popular tão simples e comumente usado no dia a dia resume com precisão qual foi o tom da participação do senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), na sabatina pós-Jornal Nacional realizada nesta sexta-feira (15). Ao longo da entrevista, Flávio foi bastante escorregadio — como um bagre recém-pescado. O objetivo era se esquivar das perguntas mais incisivas da jornalista Renata Lo Prete, o que exigiu jogo de cintura da entrevistadora para evitar que Flávio tomasse controle da sabatina. O senador, quando não desviava das perguntas, recorria à estratégia de esconder a resposta em meio a outros temas que fugiam da pergunta, criando uma bola de neve de argumentos. Ou então, a saída utilizada era focar em seu rival, citando o nome do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cerca de vinte e oito vezes, seja para fazer acusações diretas ou apenas para fugir de questionamentos incômodos.
Ainda falando sobre a postura do candidato sabatinado, é importante destacar as fakes news ou argumentos exagerados ditos ao longo da entrevista. Exemplo disso é a afirmação de que a produtora no Brasil responsável pela produção do filme “Dark Horse”, produzido em homenagem ao seu pai e ex-presidente, Jair Messias Bolsonaro, teria prestado contas a Polícia Federal sobre o destino dos recursos angariados para o longa com o dono do Banco Master Daniel Vorcaro. O que, de fato, ainda não aconteceu.
Nesse ponto, é importante pontuar a insistência da Renata Lo Prete para que Flávio Bolsonaro fosse mais claro nas respostas, pedindo a ele que respondesse a pergunta realizada ou explicasse com mais detalhes alguns pontos de sua colocação. Quando mesmo a insistência era insuficiente, deixava explícito que não tinha sido respondida e passava para o tópico seguinte, como no momento em que ela questionou o fato do senador ser contrário a marcação de projéteis de bala usadas por forças de segurança, o que permitida a identificação da origem das munições.
Com 40 minutos de sabatina divididos em dois blocos, investir muito tempo em cada um dos assuntos discutidos é inviável, mas, dependendo da relevância ou falta de precisão sobre o posicionamento de Bolsonaro, a Lo Prete precisou ser mais incisiva e reservar um tempo maior para a discussão. A ressalva que pode ser feita sobre a atuação da jornalista é a rápida pincelada sobre o tema do fim da escala 6×1 e a PEC das horas trabalhadas proposta por Flávio, deixando de expor as contradições do candidato que apoia uma PEC que ameaça os direitos e benefícios conquistados com a aprovação da nova escala de trabalho no formato 5×2.
Agora voltando a falar da postura do Flávio Bolsonaro ao longo da sabatina. Para atrair o eleitorado evangélico, Flávio adotou inicialmente um tom moderado e religioso, afirmando que seria presidente e mudaria o Brasil “em nome de Jesus”, para logo em seguida voltar a disparar ataques contra seu concorrente. Mudanças de posicionamento também ficaram claras na pauta trabalhista: em relação à escala 6×1, o candidato afirmou que era contra no início, mas que mudou de ideia após “ouvir o trabalhador brasileiro”, ressalvando apenas o receio de que o cidadão seja assaltado em um ônibus no seu dia de folga. Já na defesa dos direitos e regras para ter o registro de Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador (CACs) e do porte de armas, argumentou que o produtor rural precisa se proteger de invasores do Movimento Sem Teto (MST), aproveitando o gancho (sem nexo) para acusar o governo atual e o ministro Alexandre de Moraes por corrupção e perseguição.
Por outro lado, a participação do candidato também contou com momentos calculados para acenar ao eleitorado de centro. Em uma demonstração de confiança nos resultados das urnas, Flávio afirmou que não buscará a reeleição caso seja eleito e que não apoiará a candidatura de nenhum parente após seu mandato, argumentando que existem outros nomes promissores na direita. Prometeu ainda não retirar direitos trabalhistas, investir em empresas estatais e aumentar benefícios sociais, mostrando-se minimamente preparado para responder aos temores sobre um eventual governo seu.
Um ponto de destaque foi a manutenção de seu controle emocional, já que em nenhum momento se exaltou, marcando uma clara diferença em relação à postura adotada por seu pai em ocasiões anteriores. Mas, um detalhe crucial dessa trajetória ocorreu ainda na tarde de sexta-feira, poucas horas antes de a entrevista ir ao ar. Flávio e sua equipe participaram de um almoço reservado com a alta cúpula do Grupo Globo, incluindo o presidente João Roberto Marinho e o vice-presidente de Relações Institucionais, Paulo Tonet. Encontros a portas fechadas como esse fragilizam a credibilidade jornalística da emissora. Enquanto o grupo de mídia justifica que reuniões com candidatos de relevância fazem parte do protocolo institucional e da rotina de seus executivos, a atitude de Flávio sinaliza uma virada calculada. Ficou evidente a percepção de que, para conquistar o eleitor indeciso e construir pontes com o establishment econômico, dialogar com a imprensa tradicional é um caminho mais vantajoso do que mantê-la como adversária.
Com essa estratégia de equilibrar o discurso entre a sua base fiel e o eleitorado mais moderado, a sabatina deu um panorama claro das intenções do candidato e da TV Globo.
