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Observatório·Sabatina com os candidatos
Eleições 2026

Entre o legado e a promessa: Lula reconhece o desafio de se comunicar com o eleitor

Por Laysa Mendonça e Rebeca Freitas 8 min de leitura Ponto de partida: TV Globo

Lula chegou à sabatina da Globo, conduzida pela jornalista Renata Lo Prete na quinta-feira (15), com um desafio que já conhecia: comunicar os resultados do governo e convencer os eleitores de que eles correspondem às necessidades da população. A entrevista precisava considerar quem não se identifica integralmente com nenhum dos candidatos, votou em outra candidatura, anulou o voto ou não compareceu às urnas no primeiro turno. Conquistar esse público exige reconhecer insatisfações e demonstrar como o governo pretende responder a elas. Ao longo da entrevista, o presidente foi questionado sobre segurança pública, economia, política externa e suspeitas envolvendo autoridades.

Parte dessa dificuldade está na distância entre os indicadores apresentados pela gestão e a realidade vivida diariamente pela população. O eleitor costuma avaliar um governo pelas condições de vida, pelo acesso aos serviços públicos, pelo custo de vida e pelas mudanças que percebe na prática. O legado dos governos anteriores de Lula, portanto, não garante confiança na continuidade do projeto. Cabia à jornalista explorar as diferenças entre a situação do país ao fim do governo anterior e o cenário atual, apresentando dados e cobrando exemplos concretos de como as políticas em vigor atendem às necessidades da população.

Lula começou bem ao falar sobre a avaliação do governo, afirmando que “Tudo é responsabilidade minha”, mas também recorreu aos problemas herdados da gestão anterior para explicar as dificuldades atuais. A contradição merecia mais insistência. Reconhecer a responsabilidade política exige explicar o que foi feito, o que não funcionou e por que determinadas medidas ainda não produziram os resultados esperados.

Ao abordar a segurança pública, Lo Prete citou dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública sobre o medo da violência e questionou o que Lula faria para enfrentar problemas cotidianos, como roubos de celulares, assaltos e fraudes digitais, para além do combate financeiro às organizações criminosas.

A pergunta foi pertinente ao aproximar o debate da realidade de quem convive com o medo de sair de casa. No entanto, a formulação aproximou duas frentes que não são excludentes, o combate às estruturas financeiras das facções e a prevenção de crimes nas ruas. Faltou aprofundar quais ações cabem ao governo federal, como se daria a cooperação com os estados e quais resultados poderiam ser apresentados. Sem isso, a discussão corre o risco de ficar restrita a promessas.

Na resposta, Lula tentou ocupar um terreno em que seu adversário dispõe de vantagem política, o discurso de firmeza no combate à criminalidade. A defesa da redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos, somada à promessa de criar um Ministério da Segurança Pública e ampliar a estrutura prisional federal, representou uma mudança de tom. A posição sobre a maioridade penal contrasta com a resistência à medida historicamente associada a setores de seu campo político.

“Como cidadão brasileiro, todo e qualquer crime hediondo, eu sou favorável a diminuir a maioridade. O problema é que a PEC não estava discutindo isso, a direita, do PL, tentou apresentar uma proposta reduzindo para 14 anos, e Camilo apresentou reduzir para 16 (anos)”, declarou Lula.

Em seguida, acrescentou: “Eu sou favorável para reduzir para 16, mas não discutido nessa PEC porque essa PEC não é para ser discutido isso. Você discute a PEC, aprova a PEC e aí você pode discutir a maioridade penal ou não”.

A fala deixa uma questão importante, houve uma revisão de posicionamento ou uma tentativa de dialogar com eleitores que associam a redução da maioridade penal ao combate à violência? As possibilidades não são excludentes, mas uma mudança de posição exige justificativas claras, sobretudo em um tema tão controverso.

Na economia, a apresentação do Desenrola e de medidas de apoio a microempreendedores permitiu a Lula falar diretamente com pessoas endividadas e pequenos negócios. A abordagem tem valor comunicacional porque traduz políticas públicas em iniciativas próximas da realidade da população.

A mesma cobrança vale para a dívida pública e os juros. Ao defender o crescimento econômico como caminho para enfrentar o desequilíbrio fiscal, Lula deixou espaço para perguntas sobre a relação entre arrecadação, despesas públicas e juros. A entrevista poderia ter exigido explicações mais claras sobre os custos e os limites dessa estratégia. Não se trata de colocar o presidente no campo do liberalismo econômico, mas de cobrar que explique as consequências de suas decisões.

A abordagem sobre as relações entre Brasil e Estados Unidos foi outra questão relevante da sabatina. Lo Prete contextualizou a pressão exercida pelo governo de Donald Trump, mencionou as tarifas comerciais e apontou a preferência manifestada pelo governo norte-americano por Flávio Bolsonaro. Em seguida, perguntou como Lula lidaria com esse cenário e com a influência dos Estados Unidos na América do Sul.

Lula respondeu destacando a busca por novos parceiros comerciais e a importância da diplomacia. A resposta, porém, ficou no campo das intenções. Lo Prete poderia ter aprofundado a questão, perguntando quais setores brasileiros seriam mais prejudicados, que mercados poderiam compensar eventuais perdas e quais seriam os limites dessa estratégia.

As questões sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Banco Master exigiam cuidado para separar fatos, suspeitas e interpretações. Ao questionar Lula sobre uma suposta demora em se manifestar a respeito de suspeitas envolvendo ministros, Lo Prete afirmou que o presidente só teria usado o termo “promiscuidade” para se referir aos escândalos depois do primeiro turno.

A cobrança era legítima, mas a formulação precisava de contexto. A palavra “promiscuidade” tem forte carga valorativa, e a afirmação sobre a demora exigia comparação com declarações anteriores do presidente. Ao apresentar essa interpretação como premissa, a pergunta correu o risco de conduzir o público a uma conclusão antes de esclarecer os fatos que a sustentariam. A abordagem ganharia força se a jornalista apresentasse as declarações que embasavam a comparação e cobrasse de Lula uma explicação para a mudança de discurso.

Na resposta, Lula criticou comportamentos de ministros e defendeu a apuração dos fatos. No entanto, ao ser questionado sobre o pedido de vista de Flávio Dino em um julgamento relacionado à possível investigação de Alexandre de Moraes, mencionou que outros ministros também estavam implicados. A resposta desviou do ponto central. A proximidade política entre Lula e Flávio Dino torna a pergunta pertinente, mas não comprova favorecimento ou motivação indevida. Cabia à entrevistadora cobrar uma avaliação direta da decisão e dos critérios institucionais envolvidos, sem pressupor que a relação entre os dois determina a conduta do ministro.

O debate também envolve críticas à concentração de funções no inquérito das fake news e à atuação do STF em investigações que podem alcançar seus próprios integrantes. São questões legítimas, mas que exigem separar as críticas à estrutura institucional dos questionamentos sobre decisões específicas e das acusações de irregularidades.

Lula não pode afastar ministros do Supremo por decisão própria. Poderia, contudo, ter respondido mais diretamente sobre a importância da transparência, da imparcialidade e da apuração independente. A entrevista teria ganhado consistência se insistisse nesses princípios, em vez de permitir que a discussão se deslocasse para comparações entre ministros.

O mesmo rigor era necessário na discussão sobre o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e sua presença em eventos ligados a Daniel Vorcaro. Lula demonstrou confiança no dirigente, mas não respondeu diretamente se o manteria no cargo em um eventual novo mandato. Cabia à jornalista insistir na resposta e perguntar quais critérios orientariam essa decisão. Ao mesmo tempo, a presença em um evento, isoladamente, não comprova interferência em investigações.

Lo Prete também abordou o encontro entre Lula e Vorcaro no Palácio do Planalto, articulado por Guido Mantega. O presidente argumentou que recebe empresários e banqueiros com frequência. Embora essas reuniões façam parte da rotina presidencial, isso não elimina a necessidade de esclarecer sua finalidade e suas circunstâncias.

Na discussão sobre Ricardo Lewandowski e suas relações profissionais e familiares com pessoas ligadas a Vorcaro, Lula demonstrou apreço pelo ex-ministro. Mas relações pessoais e manifestações de confiança não respondem a questionamentos institucionais, assim como não comprovam, por si sós, irregularidades. O jornalismo precisa investigar possíveis conflitos de interesse sem antecipar conclusões.

Outro momento significativo foi quando Lula admitiu que só soube pouco antes do primeiro turno que o Bolsa Família estava sem reajuste. A declaração levanta dúvidas sobre o fluxo de informações dentro do governo e o acompanhamento presidencial de políticas relevantes. Cabia perguntar por que essa informação não chegou antes ao presidente.

A sabatina mostra, portanto, que uma pergunta pode ser relevante e, ainda assim, insuficiente. Quando a resposta não esclarece o assunto, cabe ao jornalismo insistir, pedir exemplos e confrontar informações. Ao mesmo tempo, a cobrança perde força quando interpretações são apresentadas como fatos ou quando temas complexos são reduzidos a enquadramentos que limitam a discussão. O papel do jornalismo não é facilitar a defesa de um governante nem construir armadilhas para produzir momentos de confronto, mas confrontar o discurso com os fatos, contextualizar as perguntas para quem assiste e insistir quando houver contradições.

O balanço foi mais positivo do que negativo para Lula. O presidente apresentou propostas capazes de dialogar com eleitores de baixa renda, endividados e preocupados com a segurança. Em alguns momentos, reconheceu responsabilidades e demonstrou habilidade diplomática. Em outros, deixou perguntas sem resposta, relativizou suspeitas envolvendo aliados e não explicou de forma convincente como pretende corrigir problemas de gestão. Para o eleitor já convencido, a entrevista provavelmente ofereceu argumentos para reforçar uma escolha. Para quem ainda desconfia, o bloco sobre o Supremo e o Banco Master pode ter pesado mais do que a mudança de posição sobre a maioridade penal, justamente porque atingiu uma questão fundamental, a confiança.

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