Círculo de Saberes reúne articulação do Piauí e Maranhão para tecer teia em defesa do território
Comunidades do litoral piauiense enfrentam a pressão de empreendimentos turísticos, eólicos e de carcinicultura que ameaçam seus territórios e modos de vida tradicionais.
20 de janeiro de 2026
Neste domingo, 19 de janeiro, aconteceu o Círculo de Saberes – Pensar e Agir em Comunidade, que em sua terceira edição leva o tema “Escutando e Tecendo Histórias para Comunicar o Bem Viver no litoral piauiense” e quem recebeu a atividade foram as comunidades Porto de Areia e Macapá, no litoral do Piauí. A segunda etapa desta edição do Círculo reuniu comunidades e organizações do Piauí e Maranhão.
O dia ensolarado marcou o início de um diálogo com pessoas que, todos os dias, enfrentam a pressão para deixar suas terras e abandonar modos de vida ancestrais em nome de grandes empreendimentos, sejam eles empreendimentos turísticos, de energia dita renovável ou empresas de carcinicultura. O território, afinal, não é apenas um pedaço de chão: é o lugar onde vivemos, criamos raízes, cultivamos memórias e construímos pertencimento, foi o que ficou nítido durante as rodas de conversa com as comunidades.
O encontro teve como propósito construir uma comunicação para o bem viver e para mobilizar pessoas unidas por um mesmo objetivo — o direito ao território, à moradia, à identidade, à cultura e à vida.
Nesta confluência o OcorreDiário, idealizador do círculo, contou com alianças importante do Laborejo – Grupo de Extensão do curso de Jornalismo da UFMA, a Teia dos Povos do Maranhão, o Centro de Defesa Ferreira de Sousa, a Comissão Ilha Ativa e o Movimento de Pescadores e Pescadoras. Vale destacar que, além das comunidades Macapá e Porto de Areia, também estão participando desta edição as comunidades do litoral Labino, Ilha Grande de Santa Isabel e Comunidade Boa Esperança – de Teresina.
Durante as falas, ficou evidente que lutar por território é também reafirmar o sentido de comunidade. “Se o problema não é individual, a solução é comunitária. É preciso a gente se reunir. Esse é o sentido da comunidade”, disse Sarah Fontenelle, integrante do Laborejo-UFMA e OcorreDiário.
O que é o Círculo de Saberes?
O Círculo de Saberes – Pensar e Agir em Comunidade é uma criação da Plataforma de Comunicação Popular OcorreDiário. Trata-se de um processo de formação pedagógica a partir da educação popular que visa construir uma metodologia onde a comunicação possa ser estratégia no processo de organização e mobilização comunitária. Nasceu na pandemia com o objetivo de oferecer formação política reunindo saberes e conhecimentos comunitários para elaborar soluções para o nosso tempo.
Nesta terceira edição que está acontecendo na praia de Macapá tem o objetivo de realizar formação em comunicação para defesa dos territórios, tendo como matéria-prima a escuta das memórias e das histórias de vida. Cartografando as memórias, o propósito é construir narrativas que fortaleçam a identidade comunitária e ampliem as vozes que historicamente foram silenciadas pelos grandes projetos de desenvolvimento.
Tecendo Teia
Nesta etapa do Círculo também houve a participação da Teia dos Povos do Maranhão, com o intuito de fortalecer os laços entre Piauí e Maranhão e compartilhar estratégias e táticas de lutas em defesa do território. Quem fortaleceu esta luta levando o toque maranhense foram Meire Diniz, do Conselho Indigenista Missionário – CIMI e Rosa Tremembé, do povo Tremembé da Raposa – MA.
Para Meire, articular e mobilizar comunidades a partir da comunicação popular é essencial para garantir que os povos continuem vivendo nos territórios onde nasceram, cultivando sua relação com a terra, a espiritualidade e o modo de vida tradicional. “Trabalhos como esse ajudam o povo a se manter mobilizado e organizado na defesa da vida e do território”, explicou.
A presença de Rosa Tremembé no território foi fundamental para lembrar que a costa litorânea guarda memórias que as fronteiras criadas pelo colonizador não destruiu. Para além dos limites entre os municípios as memórias se re-encontraram, gerando uma teia que trouxe a tona afetos e a certeza de que há existências que não foram silenciadas.
A expectativa é de que os saberes e conhecimentos possam continuar a circular e a mobilizar desejos, afetos e lutas, reunindo educação e comunicação popular para re-existência popular e comunitária.
Arthur Serejo — Estudante de Jornaliemo na UniversidadeFederal do Maranhão e comunicador popular, integra o Laborejo – Grupo de Extensão do curso de Jornalismo da UFMA e atua com comunicação comunitária e defesa de territórios tradicionais.
Sarah Fontenelle Santos — Jornalista, pesquisadora e comunicadora popular. Integra o Laborejo-UFMA e o OcorreDiário, atuando em projetos de comunicação popular e educação comunitária.
Sobre o Laborejo
O Laborejo é um projeto de jornalismo independente que atua no Maranhão, produzindo reportagens aprofundadas sobre temas de interesse público e ampliando a pluralidade de vozes sobre as realidades da sociedade maranhense.
