Círculo de Saberes reúne articulação do Piauí e Maranhão para tecer teia em defesa do território
Reportagem

Círculo de Saberes reúne articulação do Piauí e Maranhão para tecer teia em defesa do território

Comunidades do litoral piauiense enfrentam a pressão de empreendimentos turísticos, eólicos e de carcinicultura que ameaçam seus territórios e modos de vida tradicionais.

20 de janeiro de 2026
Participantes do Círculo de Saberes reunidos nas comunidades Porto de Areia e Macapá
Círculo de Saberes reuniu comunidades e organizações do Piauí e Maranhão em defesa do território e do bem viver. Foto: Arthur Serejo

Neste domingo, 19 de janeiro, aconteceu o Círculo de Saberes – Pensar e Agir em Comunidade, que em sua terceira edição leva o tema “Escutando e Tecendo Histórias para Comunicar o Bem Viver no litoral piauiense” e quem recebeu a atividade foram as comunidades Porto de Areia e Macapá, no litoral do Piauí. A segunda etapa desta edição do Círculo reuniu comunidades e organizações do Piauí e Maranhão.

O dia ensolarado marcou o início de um diálogo com pessoas que, todos os dias, enfrentam a pressão para deixar suas terras e abandonar modos de vida ancestrais em nome de grandes empreendimentos, sejam eles empreendimentos turísticos, de energia dita renovável ou empresas de carcinicultura. O território, afinal, não é apenas um pedaço de chão: é o lugar onde vivemos, criamos raízes, cultivamos memórias e construímos pertencimento, foi o que ficou nítido durante as rodas de conversa com as comunidades.

“Eu vou pra cidade, onde eu não conheço nada de cidade? Eu entendo bem é da maré. Eu sei qual é a hora que tá boa pra pescar, qual é a hora que o peixe aparece. Agora, se eu bater numa cidade, eu vou morrer de fome, minha família também, porque eu não sei de nada daquilo ali”, contou Domingos ao relatar o medo de ser expulso do lugar onde sempre viveu.

O encontro teve como propósito construir uma comunicação para o bem viver e para mobilizar pessoas unidas por um mesmo objetivo — o direito ao território, à moradia, à identidade, à cultura e à vida.

Roda de conversa do Círculo de Saberes com participantes reunidos
Rodas de conversa promoveram escuta coletiva e partilha de saberes entre as comunidades. Foto: Arthur Serejo

Nesta confluência o OcorreDiário, idealizador do círculo, contou com alianças importante do Laborejo – Grupo de Extensão do curso de Jornalismo da UFMA, a Teia dos Povos do Maranhão, o Centro de Defesa Ferreira de Sousa, a Comissão Ilha Ativa e o Movimento de Pescadores e Pescadoras. Vale destacar que, além das comunidades Macapá e Porto de Areia, também estão participando desta edição as comunidades do litoral Labino, Ilha Grande de Santa Isabel e Comunidade Boa Esperança – de Teresina.

Durante as falas, ficou evidente que lutar por território é também reafirmar o sentido de comunidade. “Se o problema não é individual, a solução é comunitária. É preciso a gente se reunir. Esse é o sentido da comunidade”, disse Sarah Fontenelle, integrante do Laborejo-UFMA e OcorreDiário.

Entre as reflexões do dia, uma lembrança ecoou com força: para tecer qualquer luta, é preciso da espiritualidade — a que está em nós, em nossos corpos, e também a que produzimos juntos, que movimenta a vida e sustenta a luta.

O que é o Círculo de Saberes?

O Círculo de Saberes – Pensar e Agir em Comunidade é uma criação da Plataforma de Comunicação Popular OcorreDiário. Trata-se de um processo de formação pedagógica a partir da educação popular que visa construir uma metodologia onde a comunicação possa ser estratégia no processo de organização e mobilização comunitária. Nasceu na pandemia com o objetivo de oferecer formação política reunindo saberes e conhecimentos comunitários para elaborar soluções para o nosso tempo.

Nesta terceira edição que está acontecendo na praia de Macapá tem o objetivo de realizar formação em comunicação para defesa dos territórios, tendo como matéria-prima a escuta das memórias e das histórias de vida. Cartografando as memórias, o propósito é construir narrativas que fortaleçam a identidade comunitária e ampliem as vozes que historicamente foram silenciadas pelos grandes projetos de desenvolvimento.

Tecendo Teia

Representantes da Teia dos Povos do Maranhão participam do Círculo de Saberes
Participação da Teia dos Povos do Maranhão fortaleceu laços entre comunidades do Piauí e Maranhão. Foto: Arthur Serejo

Nesta etapa do Círculo também houve a participação da Teia dos Povos do Maranhão, com o intuito de fortalecer os laços entre Piauí e Maranhão e compartilhar estratégias e táticas de lutas em defesa do território. Quem fortaleceu esta luta levando o toque maranhense foram Meire Diniz, do Conselho Indigenista Missionário – CIMI e Rosa Tremembé, do povo Tremembé da Raposa – MA.

Para Meire, articular e mobilizar comunidades a partir da comunicação popular é essencial para garantir que os povos continuem vivendo nos territórios onde nasceram, cultivando sua relação com a terra, a espiritualidade e o modo de vida tradicional. “Trabalhos como esse ajudam o povo a se manter mobilizado e organizado na defesa da vida e do território”, explicou.

A presença de Rosa Tremembé no território foi fundamental para lembrar que a costa litorânea guarda memórias que as fronteiras criadas pelo colonizador não destruiu. Para além dos limites entre os municípios as memórias se re-encontraram, gerando uma teia que trouxe a tona afetos e a certeza de que há existências que não foram silenciadas.

A expectativa é de que os saberes e conhecimentos possam continuar a circular e a mobilizar desejos, afetos e lutas, reunindo educação e comunicação popular para re-existência popular e comunitária.


Arthur Serejo — Estudante de Jornaliemo na UniversidadeFederal do Maranhão e comunicador popular, integra o Laborejo – Grupo de Extensão do curso de Jornalismo da UFMA e atua com comunicação comunitária e defesa de territórios tradicionais.

Sarah Fontenelle Santos — Jornalista, pesquisadora e comunicadora popular. Integra o Laborejo-UFMA e o OcorreDiário, atuando em projetos de comunicação popular e educação comunitária.

Sobre o Laborejo

O Laborejo é um projeto de jornalismo independente que atua no Maranhão, produzindo reportagens aprofundadas sobre temas de interesse público e ampliando a pluralidade de vozes sobre as realidades da sociedade maranhense.