A memória da matéria em Re-Selvagem, de Eva Jospin
29 de dezembro de 2025Obras revelam como natureza, memória e colonialidade se entrelaçam nos próprios materiais.
Em meio às obras de “Re-Selvagem – Natureza Inventada”, instala-se uma sensação ambígua diante de paisagens que parecem familiares à primeira vista, embora nunca tenham sido efetivamente vistas ou experimentadas de forma direta. Um reconhecimento que não nasce da memória pessoal, mas de imagens, repertórios e convenções visuais compartilhadas socialmente, tensionando a fronteira entre familiaridade e estranhamento. Essa experiência convoca a pessoa visitante a avançar na dúvida e na descoberta das armadilhas visuais construídas por Eva Jospin.
Encerrada no último dia 11 de dezembro, a exposição reuniu um conjunto de obras da artista francesa, com curadoria de Marcello Dantas, e marcou sua primeira exposição individual no Brasil. Em cartaz desde setembro na Casa Bradesco, em São Paulo, “Re-Selvagem” havia passado anteriormente pelo Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, onde foi exibida entre os meses de julho e agosto. Ambas as mostras integraram a programação da Temporada França-Brasil 2025, iniciativa voltada à celebração das relações diplomáticas e culturais entre os dois países. Atualmente, desde o último dia 10, outras obras de Jospin, pertencentes ao mesmo universo poético de “Re-Selvagem”, estão em exibição no Grand Palais, em Paris, na mostra “Grottesco”.
A partir de um conjunto de obras que reúne instalações, esculturas e painéis, elaborados com materiais diversos, como fios, papelão e madeira, e que faz referência aos panoramas do século XIX, Eva Jospin constrói verdadeiras armadilhas visuais. Diante delas, a pessoa visitante é atravessada por uma pergunta recorrente: já vi isso em algum lugar? As técnicas minuciosas de escultura em papelão e o intricado trançado de fios nos painéis, longe de qualquer banalidade, impressionam e encantam, à medida que recebemos um convite para imergir nos cenários densos e envolventes criados pela artista.
Ainda assim, as formas que emergem dessas composições parecem sempre nos falar de alusões imprecisas. Não é possível afirmar se remetem a uma paisagem concreta, já existente, ou se configuram um território inteiramente novo. É justamente nesse jogo de ambiguidades que o reconhecível se torna estranho, produzindo um efeito de suspensão e dúvida que atravessa a experiência estética.
Entre os destaques da exposição está Chambre de Soie (Quarto de Seda), um enorme painel bordado realizado com a colaboração de cerca de 300 bordadeiras e que levou um ano para ser concluído. A obra reúne mais de 400 tons de fios de seda, algodão e juta, compondo uma paisagem florestal com aproximadamente 106 metros de extensão e 3 metros de altura.
A sobreposição dos fios produz um emaranhado complexo de texturas e cores, cuja intensidade se transforma conforme o deslocamento da pessoa visitante diante da obra. Em uma primeira visão panorâmica, emergem formas reconhecíveis (galhos, folhas, cipós) que reafirmam a imersão em uma floresta exuberante. À medida que o olhar se aproxima, porém, impõe-se uma superfície densa de cores entrelaçadas, quase abstrata, que passa a preencher todo o campo visual.
Trata-se, contudo, de uma floresta inventada, imaginada e tecida por meio de gestos conduzidos pelas mãos das bordadeiras, que materializam uma noção de natureza profundamente enraizada no imaginário europeu: a da selva. Esse é um cenário historicamente presente no pensamento colonial, no qual a natureza selvagem era concebida como o habitat daqueles considerados “sem cultura” ou “sem civilização”, os chamados “selvagens”.
A exposição, entretanto, não se dedica a uma reflexão crítica dos processos de colonização implicados na construção dessas imagens-paisagens, sejam elas endógenas ou exógenas. Em vez disso, propõe outro fio narrativo, centrado sobretudo nas escolhas materiais da artista e nos modos de composição de suas obras, deslocando a atenção para uma memória que se inscreve na escala dos materiais.
Na perspectiva proposta pela exposição, as linhas do enorme painel carregam uma memória inscrita em sua própria matéria. Elas guardam vestígios do algodão enquanto elemento vivo, antes de ser deslocado para o circuito manufaturado da tecelagem e transformado em linha, e, posteriormente, em painel, pelas mãos de centenas de bordadeiras.
A mostra sugere, assim, uma atenção à memória dos materiais, que, nos trajetos criativos de Eva Jospin, retornam simbolicamente à sua origem, à condição de natureza, por meio da composição de novas (ou velhas) imagens. Essa chave interpretativa se estende às demais obras expostas, como as grandes esculturas feitas em papelão corrugado, um material industrial comum, que evocam arquiteturas distantes, nem sempre “reais”, mas reconhecíveis a partir de um imaginário arquitetônico de tradição europeia.
Essas esculturas remetem a paisagens que talvez não tenham sido vistas diretamente, mas que permanecem na memória por meio de catálogos, livros e filmes, como ruínas ou estruturas da Grécia ou da Roma antigas, levemente esquecidas, mas não totalmente apagadas.
Obras como Promontoire (Promontório), uma maquete em grande escala esculpida em papelão, permitem que a pessoa visitante circule ao seu redor e observe de perto os detalhes da arquitetura, como se estivesse munido de uma grande lupa. Outra obra, Selva, também construída com o mesmo material, assume a forma de um túnel que conduz a visitante a uma sala sem saída, semelhante ao interior de uma caverna, proporcionando uma experiência de imersão sensorial, ainda que sem contato direto com as peças.
Em Promontoire e Selva, Eva Jospin mobiliza uma imaginação espacial que dialoga com uma longa genealogia de dispositivos de visualização do mundo. A escala controlada, o convite à observação minuciosa e a sensação de acesso privilegiado a um universo condensado aproximam essas obras da tradição dos dioramas e das grandes exposições universais do século XIX, nas quais “mundos em miniatura” eram produzidos para o deleite visual das elites europeias. Assim como nesses dispositivos, o que está em jogo não é apenas a representação da natureza ou da arquitetura, mas a construção de um espaço artificialmente ordenado, oferecido ao olhar como espetáculo e como experiência.
Ao mesmo tempo, as arquiteturas em ruína que emergem do papelão remetem a uma linhagem de fantasias arquitetônicas que atravessa a história da arte europeia. Nesse sentido, as obras de Jospin evocam as gravuras de Giovanni Battista Piranesi, especialmente as Carceri d’Invenzione (Cárcere de Invenção), nas quais a arquitetura se torna um espaço imaginado, labiríntico e onírico, mais próximo de um estado mental do que de uma construção funcional.
A expografia, distribuída em dois andares, constrói um ambiente levemente sombrio e, ao mesmo tempo, nostálgico. Esse efeito é produzido com ajuda de uma iluminação discreta que, à semelhança de frestas em cavernas, parecem atravessar o teto e incidir pontualmente sobre as obras. Os focos de luz destacam-se sobre um piso cinza, que se mistura aos tons pastéis do papelão das esculturas.
As imagens evocadas pelas obras remetem a um tempo passado e distante, com ecos coloniais, marcado por certa imprecisão, característica das memórias mais recônditas, mas que permanecem vivas no imaginário contemporâneo. Essa memória, como enfatizam as obras de Eva Jospin por meio da curadoria de Marcello Dantas, está presente não apenas nas formas construídas, mas também nos materiais utilizados, que não apagam a lembrança de sua origem, mas a reativam no interior da exposição.
Ao reinscrever a natureza no campo da criação artística, “Re-Selvagem” também acaba por revelar algo incômodo sobre a memória. A memória da matéria que atravessa as obras de Eva Jospin não se dissocia da memória dos processos coloniais que transformaram territórios e corpos em imagens, objetos e espetáculos para consumo. As obras não apenas nos convidam a revisitar paisagens (nunca) vistas, mas nos confrontam com a pergunta mais ampla sobre quais imaginários de natureza seguimos reiterando hoje e a serviço de quais histórias e imagens.
Vitor Sampaio Soares é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) na linha de pesquisa “Formas expressivas e regimes de conhecimento” e é pesquisador no Coletivo ASA (Artes, Saberes e Antropologia) e no Projeto Temático FAPESP Métis (Artes e semânticas da criação e da memória).
