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Observatório·Inteligência artificial e eleições 2026
IA & Eleições

Quando a inteligência artificial vira ferramenta de ataque político

Por Crislaine Lima 3 min de leitura Ponto de partida: g1

A matéria do G1 aborda os casos de ataques contra candidatas mulheres nas eleições de 2026, envolvendo conteúdos com misoginia, transfobia, gordofobia, desumanização e racismo. Segundo levantamento do MonitorA, observatório de violência política de gênero nas redes sociais, foram analisadas 9.888 imagens publicadas em comentários de perfis de 132 candidatas no X. Deste total, 660 foram classificadas como insultos ou ataques, e 165 apresentaram indícios de uso de inteligência artificial, o equivalente a 25% das imagens ofensivas. O caso chama atenção pela facilidade com que ferramentas de IA podem produzir e fazer circular representações capazes de atingir a imagem pública de uma candidata.

O uso de IA nesse período eleitoral tem ganhado força, algo que é perigoso, campanhas com teor de humilhação as candidatas potencializam os discursos já existentes em uma sociedade preconceituosa. A facilidade dessa criação de imagens amplia a possibilidade de manipulação da percepção pública sobre uma candidata.

É nesse ponto que a matéria pode ser relacionada com o conceito de desinformação apresentado pela Agência Pública, assume diferentes formas, entre elas o conteúdo manipulado e o conteúdo fabricado. Textos, imagens, áudios ou vídeos podem ser completamente inventados com a intenção de enganar, algo que se torna mais acessível com a inteligência artificial generativa. Assim, uma imagem criada artificialmente para humilhar ou desqualificar uma candidata pode ultrapassar o campo da simples opinião ou crítica política e interferir na maneira como essa pessoa é percebida pelo público.

O problema fica ainda mais complexo quando esse conteúdo circula nas redes sociais. Uma imagem pode ser criada por uma pessoa, compartilhada por outras e atingir milhares de usuários em um curto espaço de tempo, muitas vezes sem que o público saiba sua origem ou consiga identificar que se trata de uma produção artificial. A própria Agência Pública enfatiza que a desinformação generalizada pode envolver diferentes atores e desvarios responsáveis ​​pela criação e amplificação dessas narrativas.

Nesse sentido, a inteligência artificial modifica uma prática já conhecida na comunicação política: a utilização de estratégias para criar determinadas ideias sobre os candidatos. A diferença está na simplicidade e sofisticação com que estas representações podem ser criadas. Portanto o problema não é apenas a falsidade do conteúdo, mas qualquer efeito que a sua circulação possa produzir.

Além disso, o uso da inteligência artificial para atacar candidatos pode contribuir para a manutenção das desigualdades na participação política. Quando o conteúdo se concentra em características como aparência, gênero, identidade ou raça, o debate sobre propostas e posições políticas é substituído por tentativas de desqualificação pessoal. Neste caso, a tecnologia não necessariamente cria preconceitos, mas pode amplificar discursos já existentes socialmente. A Agência Pública chama justamente a atenção para este aspecto quando afirma que os sistemas de inteligência artificial podem reproduzir e reforçar os preconceitos presentes nos dados e na sociedade a que estes retornam.

Num ambiente onde imagens e outros conteúdos podem ser facilmente criados, a necessidade de limpeza, validação e contextualização é cada vez maior. O jornalismo não pode simplesmente reproduzir o que circula nas redes; Existe a necessidade de investigar a origem do conteúdo, verificar e apresentar ao público as informações necessárias para compreendê-lo ou de fato acessá-lo. Há um trabalho de apuração por trás de toda matéria antes de sua publicação.

Por isso, o uso da inteligência artificial eleições precisa ser discutido não apenas como uma questão tecnológica, mas também como uma questão comunicacional e democrática. O problema não está só na existência da IA, mas sim como ela é utilizada para atacar outros candidatos. A questão, portanto, não é apenas tecnológica, envolve a veracidade dos fatos jornalísticos, responsabilidade, poder, representação e democracia.

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